planta do xisto / ercc
Na aldeia do xisto da Cerdeira, em plena Serra da Lousã, a Planta do Xisto mostra que o futuro pode ser cultivado com tempo, persistência e respeito pela natureza. Nascido no início dos anos 2000, este projeto de agricultura biológica transformou terrenos abandonados em socalcos produtivos, devolveu vida à paisagem e criou uma atividade económica sustentável num território de montanha.

Das ruínas à vida
Em 2001, António Carlos Andrade chegou à aldeia, então quase desabitada, e ali decidiu fixar-se. Encantado com a potencialidade daquele local, através de um projeto de Jovem Agricultor, fundou a Planta do Xisto, com o propósito de recuperar terras em abandono, criar uma atividade económica sustentável e regenerar a paisagem. Aos poucos, os terrenos ganharam nova fisionomia, com condições para o regresso da biodiversidade.
Onde o xisto ganha aroma
É do processo de regeneração que nascem as plantas aromáticas e condimentares, cultivadas ao ar livre, em clima de montanha, a cerca de 650 metros de altitude. Em socalcos de xisto crescem espécies como alecrim, tomilho, lúcia-lima, hortelã, plantas resistentes e adaptadas às condições exigentes da serra. O solo, o clima e o tempo resultam em aromas intensos, paladares suaves e cores naturalmente vivas. Infusões, sais aromáticos e doces caseiros traduzem, em sabor, uma paisagem cuidada e um modo de produção biológico certificado.
ERCC — Ecologic Restore Centre Cerdeira
O trabalho agrícola deu origem a uma nova dimensão: o ERCC – Ecologic Restore Centre Cerdeira, dedicado ao restauro ecológico e à gestão responsável da paisagem. A eliminação de espécies invasoras, a plantação e proteção de flora autóctone e a redução da carga combustível reforçam a biodiversidade e a resiliência da aldeia face aos incêndios.
É ainda um espaço de partilha, com oficinas de destilação de óleos essenciais, percursos de reconhecimento de plantas, experiências agrícolas e atividades pedagógicas.
Quem visita não leva apenas uma embalagem de chá ou de sal aromatizado: leva consigo o contacto direto com a terra, com práticas tradicionais e com uma forma de fazer agricultura que respeita os ciclos naturais.
Um trabalho posto à prova
Num território suscetível a incêndios florestais, o trabalho desenvolvido por António Carlos Andrade revela-se também como uma forma de proteção da aldeia e da paisagem.
Apesar de, em 2025, o ERCC – Ecologic Restore Centre ter visto 70% da sua área devastada por um grande incêndio, as barreiras de carvalhos e castanheiros autóctones, plantadas e cuidadas ao longo de mais de duas décadas pelo mentor do projeto conseguiram travar as chamas e proteger as casas da aldeia.
A continuidade da produção agrícola e a capacidade de recuperação do espaço confirmam a importância de um trabalho feito com intenção, conhecimento e ligação profunda ao território. As aromáticas continuam a ser produzidas e o que se perdeu está já em processo de recuperação.


Raízes que transformam
Mais do que um projeto agrícola ou ambiental, a Planta do Xisto / ERCC é o resultado de uma escolha contínua: cuidar, repetir, afinar e integrar cada gesto na paisagem. Um trabalho feito de motivação e vontade, onde o esforço diário se transforma, com o tempo, numa harmonia quase impercetível entre a aldeia, a serra e quem a habita.
Hoje, a Cerdeira não é apenas um lugar onde se produzem plantas aromáticas em modo biológico. É um território afinado ao longo dos anos, onde agricultura, restauro ecológico e vida quotidiana formam uma composição coerente. Um exemplo de como o trabalho paciente, quando guiado por motivação e intenção, pode transformar uma aldeia e abrir caminhos de futuro para o interior.


























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