ALDEIAS

Álvaro

zêzere
ZêzereÁlvaro
Álvaro
álvaro, oleiros
Uma aldeia de fé. Esta aldeia, que pertenceu outrora à Ordem de Malta, esconde um notável património religioso que vale a pena descobrir.

A aldeia de Álvaro estende-se lânguida e serpenteante ao longo do viso de uma encosta sobranceira ao Rio Zêzere, acomodada na albufeira do Cabril. Avistada do alto da magistral paisagem que a circunda, parece uma alva muralha que guarda a passagem do rio. É uma das “aldeias brancas” da Rede das Aldeias do Xisto. Isto não significa que o material de construção predominante não seja o xisto. Apenas que a esmagadora maioria das fachadas dos edifícios está rebocada e pintada de branco, apresentando, aqui e ali, vãos de cores garridas.

Rica em património religioso, a aldeia foi outrora uma importante povoação para as ordens religiosas, nomeadamente a Ordem de Malta, que deixou inúmeros testemunhos da sua presença. A Igreja da Misericórdia exige uma visita, mas para conhecer bem esta Aldeia há que fazer o circuito das Capelas. Nelas encontrará manifestações importantíssimas de arte sacra, desde pinturas a artefactos singulares, como por exemplo uma imagem do Senhor dos Passos, um Sacrário Renascentista ou ainda um Cristo morto com as Santas Mulheres e S. João Evangelista.

Aos pés da aldeia, estende-se a refrescante albufeira da Barragem do Cabril e as suas infraestruturas fluviais, um lugar para ir a banhos ou simplesmente para se apreciar a paisagem ondulante de montes e serras que se alonga até à Estrela.

  • território

    Álvaro encontra-se no ponto em que a vertente noroeste da Serra de Alveolos termina no acidente geomorfológico denominado "fosso do Zêzere", junto à margem do qual se encontra implantada. Verdadeiro promontório, outrora de muito difícil acesso, Álvaro faz contrastar o seu casario branco com o fundo verde do pinhal, estendendo-se pela linha de cumeada ao longo da crista que se ergue sobre o Rio Zêzere. Sob duas pontes de pedra, uma das quais será provavelmente romana, passa a Ribeira de Alvelos ou Rio d’Álvaro, que abraça a margem esquerda do Zêzere.

    "A situação da Terra é tal, que a tornava quasi inacessível: Uma profunda ribeira, chamada d’Alvellos, corre na direcção de sul a norte, para desaguar na margem esquerda do rio Zezere, que segue seu curso de nascente para poente. Proximo porem deste Rio encontrou um monticulo, quasi paralello ao Zezere, que a obrigou a torcer o curso a pár d’elle, indo juntar-se ao Rio no sitio onde acaba o monte, a pouco mais d’um kilometro. D’este modo fica aquelle terreno quasi cercado d’agua, formando uma especie do promontorio, ou peninsula, para a qual apenas pelo lado nascente ha facil accesso. Alem disto, tendo de elevação para o lado do Rio talvez de 200 a 250 metros, e pouco menos para o lado da Ribeira, tão a prumo estão estes lados que se qualquer objecto espherico, ou que se lhe aproxime, escapa da Povoação, ao Rio ou à Ribeira vai indispensavelmente ter. E tão estreita é esta lingua de terra, que apenas admitte uma rua, não larga, pelo cume d’ella, geralmente sem quintaes, e os que tem mui estreitos. É situação singular, que bem se pode comparar com um grande e alto cavallo, que tem a cabeça para o oriente e a anca para o occidente, sendo mui sellado no meio. O lado posterior foi destinado para fortaleza, elevando-se o castello à entrada d’elle, e sendo de difficil accesso os outros lados. Era certamente logar mui apropriado para fortaleza da idade media; sendo já mui difficil chegar ali em razão das altissimas serras, que por todos os lados o cercão. Foi esta, sem duvida, a sua origem."
    PIMENTEL (1881)

  • natureza

    O Vale do Zêzere deslumbra pela imponente paisagem e o rio surpreende pelo seu profundo traçado sinuoso. Os Meandros do rio Zêzere, um dos geosítios do Geopark Naturtejo classificado pela UNESCO, transformam este local num dos mais belos vales fluviais portugueses.
    A região envolvente reveste-se também de interesse ecológico. A mata de Álvaro sempre teve um valor excecional, nomeadamente como amostra da vegetação espontânea de natureza climática ali existente. Pelas encostas íngremes circundantes são evidentes as monoculturas de pinheiro bravo (pinus pinaster), mas é a oliveira (olea europaea) que se apresenta como um elemento marcante da paisagem rural, ou não fosse a olivicultura uma das atividades agrícolas com maior expressão na freguesia.

    PIMENTEL (1881) indicava sobre a ribeira de Alvelos que " … frequentemente arraza tudo quanto encontra, principalmente depois da destruição da Mata, a qual retardava a corrente das águas que, descendo da Serra de’Alvellos, a veem engrossar." Referia-se à Mata de Álvaro que foi sendo destruída pela população e pelos pastores que acabaram por queimar o que dela restava em 1840 "...n’outro tempo extensa, composta de castanheiros colossaes, e tão velhos que não se lhes podia aproveitar já a madeira; de carvalhos, de azereiros, folhados, medronheiros e d’outras arvores e arbustos. Grande era a utilidade d’esta Mata do Concelho, não só em razão das lenhas que d’ella se tiravão, e de fornecer de castanheiros bravos a quem plantava novos soutos; mas sobre tudo por obstar a que as águas da Serra se não precipitassem sobre as estreitas hortas da Ribeira, e causassem n’ellas grandes e frequentes prezuijos."

    Actualmente, nas linhas de água acima da aldeia, ainda resistem alguns vestígios do que seria a sua vegetação. Os castanheiros, os folhados e os azereiros regressaram. Se o azereiro é a árvore simbólica do território das Aldeias do Xisto, vejamos o que já em 1881 PIMENTEL (p. 256) escrevia acerca dela: "São próprias das encostas d’este Rio, do qual dirivão provavelmente o nome, as arvores chamadas azereiros, bellas por sua forma redonda e copada, sem nunca perderem a folha, e agradaveis pelo aroma de seus abundantes caixos de flores brancas."

    No adro da Igreja Matriz encontramos um exemplar de pseudotsuga (Pseudotsuga menziesii) e três liquidambares (Liquidambar styraciflua), espécies originárias da América do Norte e quatro castanheiros-da-Índia (Aesculus hippocastanum), espécie originária das montanhas do sudeste europeu.

    O rio da minha aldeia
    Álvaro é contornada pela Ribeira de Alvelos e o rio Zêzere corria a seus pés. Corria. Porque actualmente é a albufeira da barragem do Cabril que cria o tranquilo espelho de água em que a aldeia se reflete. Segundo PIMENTEL (1881) o seu nome é originário do tempo do domínio romano, quando era designado Osecarius. Outros autores têm outras opiniões.

  • história e estórias

    Sobre o que se passou neste local até ao final do séc. XII, não existem documentos nem vestígios. A crónica do dominicano Fr. Lucas de Santa Catarina - que recebeu a incumbência de escrever as memórias da Ordem de Malta, editadas em 1734 - fornece alguns elementos históricos sobre Álvaro.  Ele refere que então constava por tradição que no tempo da reconquista "certo Cavalheiro (de que se ignora o nome)" teria erigido na maior altura do sítio "uma casa forte, e Castelo".
    Embora não se encontre qualquer referência documental ou qualquer vestígio do castelo ou do paço, certo é que ficaram ou foram aplicadas na toponímia local as designações "Chão do Paço" e "Rua do Castelo" precisamente nos locais onde é indicado os mesmos terem existido. Refere ainda aquele cronista que a mesma tradição referia que quando os mouros já não representavam perigo, o cavalheiro se ausentou, deixando "hum criado, por nome Alvaro Pires" que "começou a povoar o sítio, repartindo as suas terras, e chamando cultivadores; beneficio que eles quizerão agradecer, conservando à Povoação o nome do Fundador".

    Assim, Álvaro terá sido fundada na linha de defesa contra os mouros, em local estratégico de passagem do Zêzere. Porém, na doação efectuada por D. Sancho I (reinado: 1185-1211) à Ordem de Malta em 1194, não se faz menção a Álvaro, deduzindo-se que a povoação ainda não existiria. Mas em 1345 o Comendador da Ordem de Malta desenvolveu diversas diligências numa disputa com o Rei relativa à posse da Comenda de Álvaro. E D. Fernando (reinado: 1367-1383), em 1381, sancionou esta pretensão da Ordem. Este litígio, sobre a posse de Álvaro e suas terras, ressurgiu com D. Afonso V (reinado: 1438-1481) que em 1455 faz dela doação ao Senhor da Trofa, Gomes Martins de Lemos, tornando-o 1º Senhor de Álvaro.

    No início do séc. XVI (1514), Álvaro passa a vila com o Foral Novo de D. Manuel I, altura em que terá sido edificado o pelourinho, hoje desaparecido. Em Carta Régia de 1516 o monarca incentiva ainda os seus habitantes à formação de uma estrutura que dê assistência aos doentes. No entanto, só no final desse mesmo séc. é que se dá a criação da Misericórdia e do seu Hospital, fundada por Catharina Garcia e por seus filhos. Ambas as instituições de assistência funcionaram nas suas próprias casas, como consta de uma escritura realizada a 29 de Julho de 1597, data da construção da Capela da Misericórdia. Em 1712 o Padre Carvalho da Costa referia que a vila, então com 360 habitantes, pertencia ao Marquês de Marialva. Mas, no campo espiritual, mantinha-se como comenda da Ordem de Malta.

    Em 1836, com advento do liberalismo e com a reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, Álvaro perdeu a sua autonomia administrativa e judicial, sendo integrada como freguesia no concelho de Oleiros.

    Lei mais aqui sobre a presença da Ordem de Malta em Portugal e na aldeia de Álvaro.

    A origem do nome
    Apontam-se duas hipóteses para a origem do nome da aldeia. Refere PIMENTEL (1881) que um criado de nome Álvaro Pires terá ficado encarregue de defender e povoar o sítio, o que terá dado nome à povoação. Por outro lado, álvaro em português arcaico significava álamo ou choupo-branco, espécie característica de zonas ribeirinhas. Certo é que álvaro surge noutros topónimos das proximidades: Porto de Álvaro, junto a Oleiros; Serdeiras de Álvaro e Mata de Álvaro.

    Escola Primária
    Álvaro teve Escola Primária, edifício construído na época do Estado Novo ao abrigo do denominado "Plano das Construções", em parceria com a Câmara Municipal de Oleiros. Recebeu obras de requalificação em 1973. Actualmente encontra-se em estado de abandono. Localiza-se no extremo poente da aldeia, no local denominado Chão do Paço.
    A aldeia também teve padaria, no edifício que possui a única chaminé industrial que se avista.

    As invasões francesas em Álvaro
    Também a então vila de Álvaro foi ultrajada pelo invasor exército napoleónico.
    Relata-se que a Capela da Misericórdia foi transformada em cavalariça. As imagens de Nicodemos e de José de Arimateia foram tombadas e aproveitadas as escavações nas suas partes traseiras como pias para dar de beber aos cavalos. Aqui, também a pedra tumular do Capitão José Rodrigues Freire que deveria ter acabado de ser colocada no piso da Capela do Senhor dos Passos, viu picadas, pela soldadesca napoleónica, todas as palavras “CHRISTO” e “IESUS” que nela constam.

    José Rodrigues Freire
    Era natural de Álvaro, nascido pobre, foi para o Brasil onde enriqueceu. Chegou a Capitão de Cavalaria do Príncipe. Foi condecorado com o hábito de Cristo, o que, naquele tempo, era grande honra. Consta que um dia, na selva, por distração, quase se teria sentado sobre uma jiboia. Tendo escapado da situação sem qualquer ferimento, logo resolveu dar graças da sua sorte no templo da sua terra.

    A barca que fazia a travessia do Zêzere
    Aqui o Zêzere nunca teve ponte. A travessia esperava pela escassez de água no estio ou era feita em barca, à força de braços ou a vau durante a estiagem.
    Nas décadas de 1960/1970 a passagem, de barca ou batelão, era paga: cada pessoa 1$00; cada cabra ou ovelha $50; cada junta de bois 4$00. Em 1983 a inauguração da ponte provocou o desaparecimento da barca.

  • património

    A malha urbana desenvolve-se quase linearmente ao longo de três arruamentos principais. Neles as construções são justapostas, maioritariamente de dois pisos, sendo o contínuo de fachadas de um e do outro lado, apenas separado pela largura da rua. Embora seja uma das “aldeias brancas” o material de construção predominante é o xisto. Poucos edifícios ostentam vãos que não sejam em xisto. A esmagadora maioria das fachadas dos edifícios está rebocada e pintada de branco, alguns com molduras dos vãos e limites de fachada pintados com cores garridas. Os antigos muros, nunca rebocados, evidenciam a técnica construtiva.

    No património religioso de Álvaro contam-se sete capelas – Santo António, S. Sebastião, Nossa Senhora da Nazaré, Igreja da Misericórdia, S. Gens, Nossa Senhora da Consolação e S. Pedro, das quais cinco estão situadas dentro da povoação e duas na zona envolvente. Existem ainda mais dez capelas na freguesia de Álvaro e no interior de cada uma delas guarda-se um admirável acervo religioso. Em redor da aldeia, os caminhos dos viandantes são bordejado por inúmeras alminhas.

    Merecem ainda destaque:

    • Igreja Matriz de São Tiago Maior
    • Pontes em Xisto sobre a Ribeira de Alvelos
    • Alminhas
    • Pelourinho (desaparecido)
      Provavelmente do séc. XVI. O único fragmento que restava do pelourinho, encontrava-se na Capela de Santo António. Um fuste cilíndrico da coluna, em cantaria de granito, mas sem remate - o que não permitiu a sua classificação tipológica.
    • Fonte de baixo
      Fonte de mergulho, toda em xisto e com reboco antigo, provavelmente do séc. XVI. Actualmente em estado de abandono.
    • Edifícios particulares do séc. XIX
      Entre os vários edifícios do séc. XIX ainda existentes, referem-se apenas os que apresentam elementos de datação:
      - à entrada da aldeia, uma casa exibe gravadas na padieira as inscrições  "Barbeiro" e a data 1838;
      - na Rua do Castelo, uma casa exibe, sobre o óculo, uma pedra gravada com a data 1886.
    • Edifícios particulares do primeiro quartel do séc. XX
      Do início do séc. XX ainda subsistem vários edifícios, que testemunham um período de crescimento da povoação. Na Rua do Castelo encontramos três edifícios residenciais:
      - um datado de 1903;
      - outro datado de 1912 (M.B.H.P. / 1.9.1.2);
      - e outro datado de 1916 (J. A. / 5.6.916).
    • Edifício da Junta de Freguesia
      Implantado no local dos antigos Paços de Concelho, de quando Álvaro foi vila. Esse edifício foi demolido e no seu lugar construída a Escola Primária, que aí funcionou até à abertura do novo edifício, no tempo do Estado Novo - altura em que foi reconvertido passando a albergar a sede da Junta de Freguesia.
    • Antiga Escola Primária
      Edifício construído na época do Estado Novo ao abrigo e segundo o modelo regional estabelecido pelo denominado “Plano das Construções”, em parceria com a Câmara Municipal de Oleiros. Recebeu obras de requalificação em 1973. Actualmente encontra-se em estado de abandono. Localiza-se no extremo poente da aldeia, no local denominado Chão do Paço.
    • Edifício da antiga padaria
      José Rosa e esposa - antigos habitantes de Álvaro e importantes beneméritos da Santa Casa da Misericórdia - adquiriram o edifício a um antigo padeiro da aldeia. Ainda alugaram o estabelecimento a outro padeiro, mas este também abandonou a actividade. José Rosa ofereceu, então, o edifício à Santa Casa da Misericórdia de Álvaro. O edifício mantém-se interior e exteriormente como um  elemento de arqueologia industrial na povoação.
    • Capela de Santo António
      Localizada no extremo poente da aldeia, data do séc. XVII. É um templo de planta quadrada, alpendrado, com contraforte do lado norte que tem no topo um sineirita. Portal em xisto, com arco de volta perfeita assente em dois saiméis trabalhados com linhas rectilíneas.
      O interior é de uma única nave rematada em cúpula, que foi sujeito a reformas sucessivas. Pia de água benta protegida por tampa em talha dourada. Retábulo simples, quase naif, representando várias fiadas de anjinhos, encima as colunas e delimita os espaços. Possui três quadros a óleo sobre tela, provavelmente do séc. XVII (Sagrado Coração de Jesus; Sagrado Coração de Maria; Virgem Maria) e uma imagem de Stº António com o Menino.
  • festividades
    • Procissão dos Faragéus (Quinta-feira santa)
    • Procissão do Enterro do Senhor (Sexta-feira santa)
    • Procissão do Senhor dos Passos (Domingo de Passos)
    • Julho, 3º fim de semana: Festa de São Tiago (festa do padreiro)
    • 08 Dezembro: Procissão da Imaculada Conceição
  • produtos
    • Hortícolas
    • Vinho
    • Medronho
    • Peixe do rio
  • como chegar

    De Norte
    Na A1 em direção a Sul, saia para Condeixa (saída 11) e siga na direção do IC3-Tomar. No nó do Avelar do IC3 saia para o IC8 no sentido Castelo Branco. No IC8 saia para Pampilhosa da Serra pela N2. Passados 15km corte à direita na N344 em direção a Pampilhosa e Oleiros. Após 14km corte à direita na N351 em direção a Álvaro e Oleiros. Após 7 km chegará a Álvaro.

    De Sul
    Siga pela A23 até à saída 23 – Castelo Branco/Pampilhosa da Serra. Tome a N112 durante 49 km e corte à esquerda na N238 em direção a Oleiros. Após 28km passe Oleiros e vire à direita em direção a Álvaro. Em 10km chegará a Álvaro.

  • nome dos habitantes
    alvarenses
  • padroeiro
    são tiago maior
  • ex libris
    património religioso

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