ALDEIAS

Pedrógão Pequeno

zêzere
ZêzerePedrógão Pequeno
Pedrógão Pequeno
pedrógão pequeno, sertã
Jóia da Beira Baixa. Uma aldeia branca, em granito, no mar de xisto castanho que a envolve. Ao lado do Zêzere, no centro da Rede das Aldeias do Xisto, com tudo à mão.

Antiga Vila, junto à margem esquerda do Zêzere, à beira do IC8, está a poucos quilómetros de Pedrógão Grande e da Barragem do Cabril. Do seu património destacam-se a Igreja Matriz e a Ponte Filipina sobre o Zêzere. Em terras do xisto há um Pedrógão – afloramento de granito – que deu pedra para cantarias de portas e janelas, embora o xisto seja o material de construção predominante.

Em Pedrógão Pequeno o xisto esconde-se sob rebocos alvos. Quando a banda filarmónica ali vem tocar, as ruas enchem-se e vem à memória a década de 50, época em que chegaram à aldeia os trabalhadores que construíram a Barragem do Cabril. Para descobrir a vista do alto do Monte da Senhora da Confiança e a velha estrada que, sobre uma antiga ponte Filipina, nos leva ao Zêzere. É obrigatório provar a sopa de peixe.

  • território

    Orgulhosa sede de freguesia do concelho da Sertã, Distrito de Castelo Branco, Pedrógão Pequeno estende-se por 4.275 hectares na margem esquerda do Zêzere, no extremo da província da Beira Baixa, próximo do local onde foi construído o paredão da Barragem do Cabril. A aldeia aproveitou para se instalar um morro granítico saliente, mas não muito declivoso e tirou partido da proximidade do Zêzere, dominando o troço de atravessamento do rio. A aldeia é envolvida por terrenos agrícolas planos de solos profundos e com abundância de água.

    Com os séculos, o povoamento deixou a opção primitiva pelo Monte da Srª da Confiança, fixando-se e desenvolvendo-se ao longo da antiga via que atravessa a aldeia para acesso à ponte do Cabril. Tal é patente pelo alinhamento da malha urbana e pela localização das casas mais antigas ainda existentes na aldeia. No início da década de 1940, Orlando Ribeiro e Sant’Anna Dionísio descreviam Pedrógão Pequeno: “… vila humilde, antiga sede de conc., de casas de granito sem reboco, sit. num planalto cercado de densas cortinas de arvoredo, a dois passos do desfiladeiro profundo cortado pelas águas obstinadas do Zêzere.” (“Guia de Portugal - Beira Litoral, Beira Baixa, Beira Alta”, 1944)

    O material de construção predominante é o granito, mas só a partir das décadas de 1950/1960 as fachadas terão começado a ser quase integralmente rebocadas e caiadas originando esta “aldeia branca”. O granito apenas permanece à vista nos vãos (ombreiras, padieiras e soleiras).

  • natureza

    Rodeado por florestas riquíssimas e altos penedos recortados por linhas de água e vegetação luxuriante, Pedrógão Pequeno está inserido numa extensa mancha xistosa do centro do país, em posição sobranceira ao profundo vale do rio Zêzere. Inclui no entanto parte de um pequeno afloramento granítico encravado nas margens do rio e que se prolonga até Pedrógão Grande.

    Para caracterizar o território vamos recorrer a um artigo do Prof. Orlando Ribeiro: “Cabeços e encostas ficaram de charneca, em que por seleção das espécies comestíveis pelo gado, predomina a esteva com a sua resina odorante no tempo quente e, na Primavera, as grandes flores brancas, duma beleza intensa mas efémera. No princípio deste século, por iniciativa dos camponeses e antes que a intervenção do Estado lhes confiscasse os baldios, o pinhal veio a cobrir estas terras safaras, até então frequentadas por cabreiros e carvoeiros. Hoje afoga de tal modo os âmbitos cultivados que o povoamento tomou uma enganadora aparência de resultar de recentes arroteias.”

  • história e estórias

    Em ambas as margens do Zêzere, foram detectados vestígios de ocupação castreja: quer no Monte de Nª Srª dos Milagres (Pedrógão Grande), quer no Monte de Nª Srª da Confiança (Pedrógão Pequeno). Este local - embora nunca tenha sido escavado - é denominado como Castro de Nª Srª da Confiança, estimando-se que se estenda por 3,5 hectares e que tenha sido ocupado desde o Calcolítico (3000 a. C. a 1700 a. C.), pelo Bronze Final (até 700 a. C.), pela Idade do Ferro (700 a. C. a 100 a. C.) e provavelmente também durante o Domínio Romano (séc. II a. C. ao séc. V). Dos tempos mais antigos de ocupação ficaram testemunhos, alguns dos quais encontrados dentro dos limites de Pedrógão Pequeno. É o caso de uma enxó em quartzo.

    Porém, atribui-se a fundação de Pedrógão Pequeno a um cônsul romano de nome Aulio Cursio (150 a. C.). O domínio romano deixou vários testemunhos, dos quais a antiga ponte sobre o Zêzere (cujos apoios em ambas as margens se encontram actualmente submersos, entre a Ponte filipina e a ponte do IC8) será, eventualmente, o mais importante. Mas não há ponte sem rede viária e a via que a atravessava poderia ligar Emerita Augusta (Mérida) pela Sertã a Conimbriga. Outro testemunho dessa via é o troço de ligação ao castro. E a atestar que a ocupação romana foi importante, também por aqui foi encontrada uma ara votiva (ver caixa “Estórias e Factos”).

    A invasão mourisca terá atingido este território em 718 e apenas em 1110 o Conde D. Henrique procedereu à sua reconquista. Posteriormente D. Afonso Henriques (reinado: 1128-1185) doou Pedrógão Pequeno à Ordem do Templo na segunda metade do séc. XII (1165 e 1174), que lhe atribuiu carta de foral em 1174.  Sancho I (reinado: 1185-1211) em 1194 doa a D. Affonso Pelagio, Prior do Hospital e a todos os irmãos da Ordem de Malta, presentes e futuros, uma terra chamada Guidintesta, vasto domínio entre o Zêzere e o Tejo, onde se inclui o domínio de Pedrógão Pequeno.

    “Assim que a Ordem de S. João de Jerusalém (Ordem de Malta) tomou posse d’aquelle vasto território, tratou logo de dar as providencias necessárias para o povoar e defender; edificando o castelo de Belver; dando foraes às diferentes terras que lhe pertenciam.” (PIMENTEL, 1881) A esta época é atribuída a hipotética construção de um castelo, do qual não existem vestígios.  Em 1419 Pedrógão Pequeno pertencia ao termo do concelho da Sertã e em1448 o Prior do Crato, D. Vasco de Ataíde, doa a povoação a Diogo da Silveira, escrivão de D. Afonso V. Este monarca (reinado:1438-1481) eleva a povoação à categoria de vila, com direito a pelourinho, forca e juiz próprio. O senhor da terra assumiu assim toda a jurisdição civil e criminal, rendas e foros. D. Manuel (reinado: 1495-1521) atribuiu-lhe foral novo em 1513. Por esta data terá sido edificado um novo pelourinho, que era encimado por esfera armilar.  Em 1618 Pedro Nunes Tinoco, por ordem de Frei Manuel Carneiro, Prior do Crato, efectua um levantamento da vila. Nas Memórias Paroquiais de 1758 é referido que a povoação tinha 109 vizinhos, pertencia ao infante D. Pedro, como Grão-prior da Ordem do Crato.

    Em 1808, durante a I invasão francesa, dá-se o saque e incêndio de várias casas pelo exército napoleónico e em 1836, na sequência da reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, o concelho é extinto e Pedrógão Pequeno passa a freguesia do concelho da Sertã.

    Um quadro do pintor de aguarelas Rui David e Silva é o único documento até agora descoberto que permite saber como era a Praça Ângelo Henriques Vidigal antes da forte intervenção urbanística realizada na vila em 1951, durante a qual foram demolidos diversos edifícios.

    A origem do nome
    Pedrógão topónimo frequente mas de interpretação controversa. Será originário do termo latino petroganum, talvez de origem pré-romana, que tem como este significado rocha esbranquiçada. Este aspeto relaciona-se com a geologia local por aqui ocorrer uma “ilha” de granito no extenso “mar” de xisto escuro deste território. A maior resistência do granito é observável no vale do Zêzere a jusante da barragem do Cabril. A designação compara a aldeia com outra povoação de maiores dimensões que lhe é vizinha (Pedrogão Grande). Numa das versões do “Portugalliae” de Fernando Álvaro Seco (1600) – uma das primeiras representações cartográficas da totalidade do território continental português – já encontramos o nome Pedrogão Pequeno na localização da atual povoação.

    Ara votiva
    Localização: Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa.
    Datação: séc. I d. C.
    Classificação: Encontra-se apresentada em “Religiões da Lusitânia” (Museu Nacional de Arqueologia, 2002)
    No início do séc. XX esta ara encontrava-se em parede de uma casa do Roqueiro, povoação próxima, sendo muito provavelmente originária do Castro de Nª Srª da Confiança. Dali foi recolhida para o Museu Nacional de Arqueologia.
    Trata-se de uma pedra granítica, paralelipipédica, com a seguinte inscrição latina:
    CICERO
    MANCI
    NABIAE
    L.V.S.
    Tem a seguinte tradução: “Cícero, filho de Mâncio, cumpriu de livre vontade o voto feito à deusa Nábia”

    Culto de NÁBIA
    A ara votiva encontrada nas proximidades de Pedrógão Pequeno testemunha que por aqui se efectuava o culto da divindade nativa de nome NÁBIA. Outros testemunhos indicadores do culto desta divindade também foram encontrados, principalmente, no norte do País e em Espanha.

    O local da forca
    Quando D. Manuel I procedeu à reforma dos cerca de 750 forais antigos então existentes, já muitas povoações tinham Casa da Câmara como sede do poder executivo local e edifício para exercício do poder judicial. A Justiça possuía, então, três símbolos: o Tribunal (com cadeia), o Pelourinho e a Forca. Esta deveria estar localizada nos arrabaldes da povoação mas, intencionalmente, em local bem visível, como o topo de um outeiro. Em Pedrógão Pequeno o local escolhido para a implantação da forca foi o morro onde actualmente está o cemitério.

    “Tojos e rosmaninhos”
    Pedrógão Pequeno e a sua envolvente têm algumas ilustrações em “Tojos e rosmaninhos” (1907), da autoria de Alfredo Keil. O compositor de “A Portuguesa” escreveu os poemas e executou as ilustrações, aquando das suas estadias na proximidade de Ferreira do Zêzere e tendo por base as suas visitas à região.

  • património

    Sólidas, pesadas, de volumes simples e paredes espessas, as construções populares de Pedrógão Pequeno denotam uma relação íntima com o campo que tem resistido à passagem do tempo. As casas particulares da vila contam as histórias de quem ali viveu e vão ganhando protagonismo à medida que os anos lhes emprestam antiguidade. É outra das “aldeias brancas” da rede das Aldeias do Xisto.

    Pedrógão Pequeno encerra tesouros arqueológicos que apetece explorar: um troço de calçada romana que conduzia a um ramal de acesso a um castro da Idade do Ferro; uma muralha castreja plena de vestígios ainda por estudar; um conjunto de estelas discóides que podem representar a crença na vida além-túmulo.

    Com um património riquíssimo, Pedrogão Pequeno tem muito para ver neste campo: via romana, ponte filipina do Cabril, pelourinho, edifícios particulares de séculos distintos, Cantina Escolar Manuel Ramos, antigo Hospital da Misericórdia, Ponte do Ribeiro, diversas capelas, entre outros pontos de interesse.

    Ainda merecem destaque:

    • Ponte Filipina
    • Pelourinho
    • Edifício da Junta de Freguesia
    • Igreja Matriz
    • Capela da Misericórdia
    • Edifícios particulares dos séc.s XV e XVI
      Essencialmente caracterizadas por as portas e janelas apresentarem vãos arredondados ou chanfrados.
    • Edifícios particulares dos séc.s XVII e XVIII
    • Edifícios particulares de finais do séc. XIX e o início do séc. XX
      Estes edifícios testemunham um outro apogeu da povoação, já depois de ter deixado de ser sede de concelho.
    • Antigo Hospital da Misericórdia
      Foi o antigo hospital da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Pequeno. Naquela época, marcada por uma profunda religiosidade cristã, a assistência aos mais necessitados era efectuada pelas instituições religiosas (ex: mosteiros) ou por instituições fundadas por particulares abastados que se agregavam em instituições (ex: Misericórdias) e que procuravam, através destas obras pias, assegurar a sua salvação eterna. O edifício com funcionamento hospitalar passou posteriormente para a esfera pública. Actualmente encontra-se em estado de ruína.
    • Ponte do Ribeiro
      Junto à EN2. É uma ponte de um só arco abatido mas levemente subido ao centro.
    • Estrada do Cabril
      Construída em 1860, permitiu um melhor acesso à ponte filipina.
    • Escola Primária
      Edifício escolar do séc. XIX de linhas singulares, em estilo neoclássico, a que não falta larga escadaria de acesso. No frontão destaque para um medalhão com a inscrição "ESCOLA EDUARDO CONCEIÇÃO SILVA LEGADA EM 26 DE NOVEMBRO DE 1883 Á INFÂNCIA D’ESTA SUA TERRA NATAL 1888". Na porta de entrada, trabalho em ferro com a data 1887.
    • Cantina Escolar Manuel Ramos
      Edifício característico do denominado "Plano das Construções" lançado pelo Estado Novo em 1940 com o objectivo de construir todos os estabelecimentos de ensino primário necessários à "instrução do Povo Português". Em 1941 o Plano estabeleceu como objectivo a construção de 6060 edifícios e um total de 12500 salas de aula. Certo é que até ao final de 1950 foram construídas 7000 novas escolas por todo o País. As escolas do Plano das Construções tornaram-se numa imagem de marca de Portugal.
    • Capela de Santo António
      Já existia em 1730. Restaurada em 1950. Pequena capela de planta rectangular, implantada sobre um afloramento rochoso.
    • Capela de São Sebastião
      De construção anterior a 1730, serviu como capela do antigo cemitério até 1892. Segundo referências antigas, teria um alpendre. Em 1918 recebeu obras custeadas pela família Vidigal, que aqui realizava as cerimónias de casamento e baptizado dos seus membros.
    • Capela de Santa Maria Madalena
      Mandada edificar pela família Conceição e Silva em 1893. Frontaria orientada a poente. Portal simples, com arco de volta inteira. O topo da fachada é decorado com dois pináculos e com uma cruz assente sobre esfera encaixada em base trabalhada com 4 volutas. No altar um nicho aloja a imagem de Stª Maria Madalena.
    • Alminha do Cabril
      Pequeno nicho no qual se aloja uma tábua pintada com representação das almas no Purgatório, que contém a inscrição:
      "Pelas alminhas do Purgatório. Padre Nosso. Avé Maria"
      Ao lado uma lápide em granito gravada com a inscrição:
      Ó.UÓS.OUTR
      OS.q.PASAIS.S
      EM.OLHARES.Pª
      NOS.LEMBRAIUO
      S.DE.NOSAS.PENAS
      ASSIM.SEREIS.UOS.1861
      "Ó vós outros que passais sem olhar para nós. Lembrai-vos das nossas penas que assim sereis vós".
    • Via sacra
      O circuito das 14 estações encontra-se estabelecido entre o centro da aldeia e o topo do Monte da Srª da Confiança. A Estação I encontra-se na confluência da Rua Eduardo Conceição e Silva com a Praça Ângelo Henriques Vidigal. Possui uma cruz, mas não se encontra datada. A Estação II está na Praça Ângelo Henriques Vidigal. Está datada de 25.08.1865. A Estação III está na EN2, possui cruz, mas não está datada. As restantes estações encontram-se depois do atravessamento da Ponte do Ribeiro, a caminho da Capela de Nª Srª da Confiança. Todas as estações possuem representação da respectiva cena da via sacra em moderno painel de azulejos.
    • Capela de Nossa Senhora da Confiança
      O templo actual sucedeu a outro mais antigo. A frontaria orientada a sul, para Pedrógão Pequeno, ostentando a inscrição "CAPELLA DE NOSSA SENHORA DA CONFIANÇA MANDADA ERIGIR, NO ANNO DE 1902 PELA FAMÍLIA CONCEIÇÃO E SILVA". No interior uma só nave e arco cruzeiro ladeado por dois altares.
  • produtos
    • Hortícolas
    • Sopa de peixe
  • como chegar

    De Lisboa
    Seguir na A1 até à saída 7 (A23 - Abrantes/Torres Novas). Seguir pela A23 e sair na direção de Tomar. Seguir pelo IC3 durante 25Km até Sta. Cita. Na N110 seguir durante 28km até Cabaços. Seguir no IC8 durante 25km até Aldeia Ana de Avis. Virar à direita, entrando na N2, e cerca de 400m depois está Pedrógão Pequeno.

    Do Porto
    Seguir o IP1, na direção Sul, até à saída 11 (Lousã). Perto de Cernache, virar à direita. Continuar pelo IC8 durante 33km até à Aldeia Ana de Avis. Virar à direita, entrando na N2, e cerca de 400m depois está Pedrógão Pequeno.

    De Espanha (Vilar Formoso)
    Seguir a A25, sair em direça à A23. Seguir a A23 até à saída 18 (Pombal) Seguir o IC8 até à saída indicada de Pedrógão Pequeno.

  • nome dos habitantes
    pedroguenses
  • padroeiro
    são joão batptista
  • ex libris
    monte da sr.ª da confiança e cabeço das freiras

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