O frio ainda se fazia sentir na manhã de domingo, 15 de fevereiro, quando os primeiros foliões começaram a concentrar-se na Aldeia do Xisto de Aigra Nova. O inverno não demoveu ninguém. Pelo contrário: confirmou aquilo que há muito se tornou certeza nas serras de Góis. Faça chuva, vento ou frio, a Corrida do Entrudo cumpre-se. Porque, mais do que um evento, é um ritual.
Às 08h30, dava-se o ponto de encontro. Às 09h00, os autocarros partiam, levando cerca de 50 foliões rumo às aldeias “corridas”: Pena, Cerdeira, Esporão, Ponte do Sótão, regressando depois à Aigra Nova. Pelo caminho, quadras jocosas, gargalhadas, provocações bem-humoradas e o espírito irreverente que caracteriza este Entrudo serrano.
“Sejam todos bem-vindos ao foliar,
E todos que estão a escutar,
As quadras jocosas não foram censuradas,
Há verdades que vão ser reveladas!!!”
O tom estava dado. Como manda a tradição, homens vestidos de mulher, mulheres vestidas de homem, rostos ocultos por máscaras — outrora feitas de serapilheiras, fronhas ou cortiços — hoje trabalhadas em cortiça, numa estética que se tornou imagem de marca do concelho.
Um ritual maior do que o turismo
Para Jorge Lucas, presidente da Lousitânea, associação que dinamiza o Entrudo, o crescimento da iniciativa foi tudo menos planeado. “Houve um início ingénuo, não fazíamos ideia da dimensão”, recorda. “Começámos há 21 anos com quatro ou cinco pessoas e hoje temos 50 foliões.”
O responsável sublinha que a essência nunca esteve dependente da procura turística: “Costumamos dizer que com chuva, com vento, com frio, com pouca ou muita gente, nós fazemos sempre. Porque isto é essencialmente uma festa de rapazes e raparigas. Isso é o essencial.”
Ainda assim, reconhece que a dimensão aumentou — não apenas no número de visitantes, mas no próprio grupo. “Temos gente de Lisboa, do Porto, da Almada, da região… e pela primeira vez começamos a ter mais jovens da própria vila de Góis. Isso é sinal de que estamos a conquistar o ritual.”
A máscara como transformação
Paralelamente à Corrida, a Aigra Nova acolheu o Atelier da Máscara. A construção de máscaras de cortiça tem vindo a despertar um interesse crescente, envolvendo artesãos locais e novas gerações.
Jorge Lucas explica que, em 2011, foi necessário recorrer ao artesão José Cerdeira para dar resposta à procura. Após o seu falecimento, surgiram novos criadores. “Nasceram outros interesses. Jovens locais começaram a fazer máscaras. Eu próprio faço muitas e ofereço aos amigos.”
Este dinamismo reflete-se também nos próprios foliões. Luís Gaspar, conhecido como “Lobo Mau”, veio da Figueira da Foz há cinco anos, movido pela curiosidade — e ficou. “Tem esta tradição muito parecida com a minha aldeia. Para mim foi voltar à minha infância, e aquilo que já morreu na minha terra.”
Este ano trouxe uma máscara que terminou poucos dias antes. “É muito pesada, pesa uns 30 quilos”, conta, entre risos. “Mas acaba por compensar. Tudo para animar aqui a malta. E também para nos animarmos a nós próprios. Se não nos animarmos, é pobre.”
Já Tiago Cerveira, ligado à prática desde 2012, fala da magia da máscara: “Quando colocamos a máscara, transformamo-nos”, afirma. Para ele, o Entrudo é um mix entre festa e ancestralidade. “Há uma prática que vem do solstício de inverno, da passagem do tempo fértil. E depois há o dia em si, as amizades, o sermos veículos desta tradição.”
Hoje, traz consigo o filho. “Ele já tem máscara e já vem fazer a prática. Claro que para ele é só um dia de festa, mas são sementes que deitamos à terra para que daqui a uns anos a coisa flua.”
Comunidade cheia, tradição viva
Àtarde, a praça da Aigra Nova encheu-se para as quadras e concertinas e o tradicional Jogo do Pau do Presunto e do Bacalhau, onde a cooperação se sobrepõe à competição. O presunto, como manda a tradição, acabou partilhado por todos.
No final, a Queima do Entrudo — o boneco de palha e caruma — encerrou simbolicamente mais uma edição. O fogo purificador iluminou rostos mascarados e descobertos, visitantes e locais, antigos e novos participantes.
Num dia marcado pelo frio pós-tempestade, a aldeia esteve cheia. “Temos a casa cheia”, dizia Jorge Lucas com satisfação. “Isso é muito bom.”
Mas, acima de tudo, o que se confirmou foi outra coisa: a Corrida do Entrudo das Aldeias do Xisto de Góis continua a ser, antes de mais, um ritual comunitário. Um momento de inversão, de reencontro anual e de celebração coletiva. Um Entrudo que corre entre aldeias — e entre gerações — garantindo que a tradição não fica parada no tempo, mas segue viva, reinventada e partilhada.









