Na Aldeia do Xisto da Benfeita, há um dia no calendário que não passa despercebido. A 7 de maio, o sino da Torre da Paz volta a ouvir-se 1620 vezes: tantas quantos os dias que a memória local decidiu guardar da guerra, repetindo o gesto que, em 1945, anunciou ali o fim do conflito na Europa. O ritual manteve-se. E, com ele, cresceu também o que a aldeia faz a partir dele.
A segunda edição da Festa da Paz, que decorreu nos dias 7, 9 e 10 de maio, voltou a ancorar-se nessa ligação entre uma comunidade e a sua história. Ao longo de três dias, cruzou memória, cultura e participação local, mostrando como esse episódio fundador se transformou, hoje, numa forma de identidade.
“Celebrar a paz não é apenas recordar o passado, é assumir um compromisso com o presente e com o futuro”, sublinhou o presidente da Câmara Municipal de Arganil, Luís Paulo Costa, na sessão de abertura, apontando a atualidade de uma mensagem que atravessa décadas.
A mesma ideia foi reforçada pelo presidente da Assembleia Municipal, que alertou para um contexto internacional “marcado por tensões, guerras e incertezas”, defendendo que recordar 1945 implica também agir no presente. As 1620 badaladas, disse, representam não apenas o fim de um conflito, mas “a esperança de um futuro melhor” e a responsabilidade de o construir.
O programa da Festa acompanhou esse cruzamento entre passado e presente. Para além das badaladas, incluiu a apresentação da candidatura da Torre da Paz a Monumento de Interesse Municipal (IMI), uma exposição dedicada à memória dos regimes totalitários, momentos de poesia, concertos, oficinas criativas e iniciativas comunitárias, como o gesto coletivo de deixar mensagens pela paz na zona ribeirinha da aldeia.
De relógio público a símbolo da paz
Foi também durante o evento que se apresentou publicamente a candidatura da Torre da Paz a IMI, um processo que procura reconhecer formalmente um símbolo há muito enraizado na identidade local e que já se encontra em Diário da República, para consulta pública, desde o passado mês de abril.
Construída em 1945 no espaço da antiga sacristia da Capela de Santa Rita, a torre nasceu, inicialmente, como relógio público, sinal de modernidade para a aldeia. A ideia partiu de Leonardo Gonçalves Mathias e do então presidente da Junta, Alfredo Nunes dos Santos Oliveira, ganhando dimensão com o envolvimento de Mário Mathias, que mobilizou uma subscrição pública e garantiu apoio institucional.
O projeto, inicialmente orçado em 11 contos, acabaria por ultrapassar os 22, permitindo dotar o edifício de dois sinos e de um relógio automático cujas peças ainda hoje exibem inscrições como “Bendigamos a Paz” ou “A paz seja connosco”.
A investigação associada à candidatura veio também clarificar a própria história do monumento, nomeadamente a designação “Torre da Paz”, já documentada em 1945, contrariando a ideia de que teria surgido apenas após o 25 de Abril de 1974.
“É precisamente nesse núcleo de valor, patrimonial e simbólico, que assenta a decisão do município de dar início ao processo de classificação”, afirmou o presidente da autarquia, que considera a torre “um símbolo maior” e “um marco da consciência coletiva”.
A Aldeia do Xisto da Paz
A torre não vive isolada: aparece hoje integrada numa narrativa mais ampla, e isso ficou evidente ao longo da Festa e nas intervenções institucionais.
O presidente da ADXTUR - Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto lançou mesmo o desafio de reconhecer a Benfeita como “Aldeia do Xisto da Paz”, sublinhando a singularidade do seu posicionamento dentro da rede.
Num território marcado por diferentes vocações que vão da natureza à gastronomia, a Benfeita apresenta um elemento distintivo: um monumento com significado universal, um ritual que se mantém há mais de oito décadas e um evento que cruza memória e comunidade.
“Não precisamos de inventar nada, apenas valorizar o que é nosso”, afirmou, defendendo que é dessa autenticidade que nasce a força do território.
Mais de 80 anos depois de terem ecoado pela primeira vez, as badaladas continuam a marcar o ritmo da aldeia. Já não apenas como lembrança do passado, mas como parte de uma identidade que se constrói na repetição: discreta, persistente e partilhada.
Na Benfeita, essa história não se conta uma vez por ano. Vai-se contando todos os dias.









