ALDEIAS

Ferraria de São João

serra da lousã
Serra da LousãFerraria de São João
Ferraria de São João
ferraria de são joão, penela
Aldeia com grande pedalada. Entrar nesta aldeia é descobrir um futuro em constante movimento.

A riqueza paisagística e cultural da aldeia é por demais evidente. A entreajuda e a interação próxima entre os habitantes ainda é herdeira de um cariz profundamente rural. No entanto, aqui, é algo que não ficou cristalizado no tempo. Os novos habitantes que ao longo dos anos se têm fixado, gerindo os seus negócios ou simplesmente por opção de vida, têm mudado a face da aldeia e estimulado uma nova energia entre as pessoas. A Ferraria, como abreviadamente lhe chamam, abriu-se ao mundo sem deixar de ser o que é. As intervenções na aldeia, tanto por parte da Rede das Aldeias do Xisto, como dos agentes locais e do Município, assentam no que de mais identitário e genuíno aquele local é e tem para oferecer.

Na Ferraria de São João, convivem a ruralidade e o turismo ativo. A aldeia possui um conjunto de aspetos que a distinguem das demais: um magnífico sobreiral, um numeroso conjunto de currais tradicionais, um Caminho do Xisto, um Centro de BTT, um FunTrail para os mais pequenos, e muitos trilhos para descobrir.

SOBREIROS ENTRE XISTO QUARTZÍTICO
Alcandorada numa crista quartzítica no extremo sul da serra da Lousã, aqui descobre-se como o xisto e o quartzo se casam numa união tão perfeita que só poderia acontecer em Ferraria de São João. O material de construção predominante é o quartzito, embora algumas fachadas dos edifícios se encontrem rebocadas e pintadas de branco.

A malha urbana possui um núcleo central, mais denso, construções genericamente alinhadas ao longo das ruas do aglomerado e um numeroso conjunto de currais, agrupados num dos extremos da aldeia.

O cenário de fundo perfeito para emoldurar o ex-líbris da Aldeia: um conjunto de currais comunitários na orla de um imenso e mágico montado de sobreiros. Um dos projetos mais visíveis e de maior sucesso da Associação de Moradores, revitalizada pelos novos habitantes, é a adoção de sobreiros.

  • território

    A aldeia localiza-se na parte sul da Serra da Lousã, localmente denominada Serra do Espinhal, também conhecida como Serra de São João - e também referenciada em documentos da época da fundação da nacionalidade como Serro Agudo.

    Ferraria de São João desenvolve-se no fundo de uma encosta, entre a zona de afloramentos e depósitos rochosos, e os ricos solos que caracterizam este vale de média altitude. A aldeia estende-se ao longo desta faixa, não sacrificando a área de solos, que sempre foi determinante para a sua sobrevivência.

  • natureza

    Mais do que a natureza na aldeia, esta aldeia está com a natureza. O majestoso sobreiral serve de moldura ao flanco da aldeia que sobe pela encosta quartzítica. No vale em frente da aldeia, quer do solo quer de inúmeras nascentes, brotam os fios de água que dão lugar à Ribeira das Ferrarias, que adiante se precipitará na Ribeira de Alge. Esta passará ao lado da Aldeia do Xisto de Casal de São Simão a caminho do rio Zêzere, que a recebe transfigurado em albufeira de Castelo do Bode.

    À serra densamente povoada por espécies ainda da flora original, de que são exemplo os castanheiros, contrapõem-se as planícies de solos fracos e vegetação agreste, de onde brotam, aqui e ali, significativas elevações de terreno que se impõem na paisagem e a tornam peculiar.  A fauna existente é bastante diversificada: abundam diversas espécies de répteis, mamíferos e aves.

  • história e estórias

    O estabelecimento deste povoado não será estranho à área de quase planos terrenos agrícolas que se estende na sua frente.

    A estrada, de terra batida, chegou à aldeia em 1961. Até esse ano, a circulação de pessoas, animais e bens era feita por meros carreiros pedonais em direção ao Avelar, ao Espinhal e a Figueiró dos Vinhos, locais onde os habitantes iam vender os seus produtos.

    A estrada chegou quando a aldeia atingiu o auge do seu crescimento: cerca de 40 casas, muitas delas habitadas por um casal e uma prole imensa de petizes, da qual a seleção natural se encarregaria de escolher os que perpetuariam a vida de sacrifícios dos seus antecessores. Foram as dificuldades - para as quais a estrada constituiu uma porta de fuga - que levaram à partida dos seus habitantes, desde o início da década de 60.

    Hoje, com a fixação de novos proprietários com novas ideias, que lhe mudaram o destino, a Ferraria de São João é um caso exemplar de uma aldeia do séc. XXI.

    A origem do nome
    Muito provavelmente, o nome “Ferraria” estará ligado à existência, no passado, de uma pequena exploração de ferro. “São João” refere-se, ou à Serra de São João, que enquadra a aldeia, ou à existência – na encosta, um pouco acima da povoação – de uma capela dedicada a São João. Serra também, onde, a escassa distância, se encontra a Ermida de São João do Deserto.

    Memórias do grande rebanho comunitário
    A Ferraria de São João sempre possuiu o seu rebanho comunitário. Os habitantes referem que, na primeira metade do séc. XX, o rebanho tinha mais de mil cabeças, maioritariamente caprinos. Todos os dias, ao raiar da manhã, quando as portas dos currais se abriam, formava-se aquele corpo de mil cabeças que escalava a serra em busca dos pastos. Por cada 15 cabeças que um proprietário possuísse, era obrigado a acompanhar por um dia o rebanho. Se possuísse 30, teria que acompanhá-lo dois dias e assim sucessivamente. Hoje, as 20 a 30 cabeças do rebanho continuam a seguir as mesmas pisadas.

    Lobos
    Quando, na primeira metade do séc. XX, a aldeia enxameava as encostas da serra com um rebanho de mais de mil cabeças, era um atrativo para as alcateias. Desde os ataques por grandes lobos solitários aos ataques por uma alcateia de sete, em 1940, a memória dos habitantes mais idosos ainda conserva momentos de medo e cólera.

    Um baldio curioso
    Os cerca de dois hectares onde estão implantados cerca de 200 sobreiros e o conjunto de currais tradicionais, correspondem a um terreno baldio, sendo, por isso, da posse da comunidade da aldeia. Mas os sobreiros não pertencem ao baldio, são propriedade de vários donos. Também os currais que estão no terreno baldio têm cada um o seu proprietário.

    Responso
    Responso para cortar o cobrão, ainda utilizado na Ferraria de São João. O cobrão é a designação para a zona (Herpes zoster), uma erupção cutânea provocada pelo mesmo vírus que origina a varicela.
    É cobra ou cobrão ou sapoulo ou sapolão.
    Eu te corto o vão, o são, a raíz do espinhaço e
    adiante não vás, atrás não voltes,
    onde estás, aí morras.
    Este responso deve ser efetuado com um espeto de madeira, previamente afiado com uma faca, fazendo sucessivos sinais da cruz sobre o local de ocorrência do cobrão.

    No tempo das gaivotas
    As gaivotas - engenhos rústicos utilizados para retirar a água dos muitos poços que existem no vale - correspondem a um símbolo de tempos passados, quando a rega das culturas agrícolas - principalmente a batata e o milho - obedecia ao ritual de força de braços que assegurava a sobrevivência ou garantia alguma riqueza aos habitantes.

    Espeleologia
    O concelho de Penela é detentor de um património espeleológico significativo. Situadas a sul da nascente do Rio Dueça, e a escassos metros da EN 110, na zona de Taliscas, as Grutas de Algarinho e Talismã são consideradas das maiores grutas do país e bastante visitadas por grupos espeleológicos vindos de todo o lado.

    História do concelho de Penela
    O concelho de Penela terá sido fundado ainda antes da nacionalidade. Teve o seu primeiro foral em Julho de 1137, concedido por D. Afonso Henriques, sendo portanto um dos Municípios mais antigos do País. A este facto não terá sido alheia a grande importância estratégica de Penela no contexto da reconquista. Tendo em atenção estudos feitos aos vestígios existentes, é de crer que na origem do Castelo de Penela estivesse um Castro lusitano posteriormente aproveitado pelos Romanos aquando da sua conquista, no século I A. C. À história de Penela crê-se estarem ainda associadas as passagens sucessivas dos Vândalos, destruidores da fortaleza construída pelos Romanos; dos Mouros, que tomaram o Castelo de Penela no séc. VIII e das tropas de Fernando Magno (Rei de Leão), tendo a fortificação ficado sob o poder do Conde D. Sesnando, primeiro Governador de Coimbra (depois da Reconquista em 1064), a quem se deve a construção de um forte castelo medieval no interior da fortaleza moura já existente.

  • património

    As estruturas urbanas existentes na aldeia são um exemplo da sua vivência eminentemente rural, predominando a agricultura e a pastorícia de subsistência. Ao nível do edificado regista-se uma forte presença da arquitectura popular, onde predominam os materiais locais, a madeira, os xistos, os calcários e os quartzitos. A maior parte das casas reflecte este toque de ruralidade, com dois pisos, sendo o do rés-do-chão para arrumos e currais, e o andar de cima para habitação. Do mesmo modo, se os currais são integralmente em pedra à vista, o piso superior é maioritariamente rebocado e pintado, devido a uma maior exigência de conforto na área habitacional. Estas características conferem à Ferraria de S. João um ambiente único.

    Merecem destaque:

    • Capela de São João
      Pequeno templo de linhas sóbrias, sem elementos decorativos no exterior.
    • Alminha
      Pequeno nicho encastrado no muro que ladeia a rua que desce para o centro da povoação, com a inscrição em cimento MS 1969. Possui pintura sobre chapa metálica representando as almas no Purgatório.
    • Alminha na saída norte
      Com a inscrição gravada em pedra calcária JT 1925. Ainda possui a chapa metálica sobre a qual existira pintura.
    • Currais
      O conjunto de currais, poderá corresponder a um dos mais numerosos que, globalmente em bom estado de conservação, ainda existe em Portugal. A aldeia possuiu um rebanho comunitário que ascendia a mais de mil cabeças. Era nestes currais que cada proprietário guardava seu o gado.
    • Eira
      Junto a uma das ruas do centro da aldeia ainda existe uma eira, em bom estado de conservação, cujo pavimento é em lajes de calcário, material mais fácil de ser aparelhado do que o quartzito que ocorre no local.
  • produtos
    • Queijo de cabra
    • Cabritos
    • Hortícolas
  • como chegar

    De Norte e de Sul
    Na A1 sair na saída 10 (Pombal) na direcção de Castelo Branco pelo IC8. Passados 31,5km sair para o IC3 no sentido Norte em direcção a Condeixa. Ao fim de 5,5km virar à direita para a Ferraria de S.João. Subir 6km até chegar à Aldeia.

    De Espanha (A25)
    Na A23 sair na saída 18 para o IC8, na de direcção Pombal/Sertã. Ao fim de 77km sair no nó do Avelar para Condeixa, pelo IC3. Ao fim de 5,5km virar à direita para a Ferraria de S.João. Subir 6km até chegar à Aldeia.

  • nome dos habitantes
    ferreiros
  • padroeiro
    são joão baptista
  • ex libris
    sobreiral e currais comunitários

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